LA LONGUE JOURNEÉ
Bem sei que não deram por nada mas, a realidade é que venho regressada de França (mais oui) e Espanha (pressupuesto), cortesia dos srs Placebo que alimentaram as minhas mais básicas necessidades desse vício tenebroso denominado “Estradite” (em inglês ‘on the road-ite’). É certo que os meus instintos de band aid itinerantes não foram totalmente satisfeitos mas, o facto é que o meu conta quilómetros interno passou por:
Lisboa – Hendaye (fronteira da Espanha) –
Toulouse (França) – concerto dia 29/10 – (de volta a)
Hendaye –
Coimbra –
Porto –
Viana do Castelo –
Santiago de Compostela (Espanha) – concerto dia 31 de Outubro – (de volta) – Viana – Porto – Coimbra – Lisboa - minha rica casinha (Uff).
Numa primeira impressão afirmo que tão cedo não me apanham num país de língua francesa pois, não há maior frustração que aquela de querer comunicar e não nos fazermos compreender – para além do pessoal não falar ‘puto’ inglês ( nem os estudantes, caramba!) Só houve uma alma francesa que falou comigo, em inglês. Tinha 1.90, careca, inchado de músculos e com voz áspera rosnou:
“Photograph 2nd song until the 4th.”
“Je sais!” – Exclamei
No concerto (após um degredo de 4h à espera que abrissem as portas do Zénith ), valeu-me a companhia de um fotógrafo simpatiquíssimo com o qual – pasme-se – consegui manter uma conversa decente. No concerto de Espanha, curiosamente, encontrei um fotógrafo de Vigo que conheci em Paredes de Coura. Fantástico, eu confraternizando com a comunidade fotojornalística europeia.
Mas vamos começar pelo início...
Era uma vez uma rapariga que cortou a cabeça do polegar com o x-acto num incidente estilo Kill Bill, versão corte e cola, obrigada a manter o polegar enfaixado durante uma semana...
(ups...wrong story)
Era uma vez uma rapariga que acreditava piamente que conseguia estar na gare do Oriente em 1h – e, de facto, conseguiria fazê-lo se o maldito metro não tivesse fechado as portas no seu nariz quando ela berrou um desesperado NÃOOOOOOOOOOOO!!!!! É claro que a rapariga em questão – moi - estupidamente preferiu ir a pé da estação de Roma até a Alameda em vez de esperar pelo comboio até à Gare, mas isso já são coisas incompreensíveis de um ser inteligente perceber.
Plano original.
Partida na segunda no comboio para Hendaye (Espanha), Montpellier (França) na terça, Toulouse (França) na quarta e “matar 2 concertos de uma só carrada de comboios”. 3 míseros minutos separaram a rapariga do plano original. Contudo, Deus existe e perdoa os idiotas! Não só foi possível renegociar o bilhete de comboio para o concerto de Toulouse como, quando a nossa protagonista chegou a casa tinha um email do João Viana (esse jovem com grande futuro pela frente), estilo Satanás, a tentar os fracos
“Eu também vou ver Placebo, mas em Espanha!”
(Caramba! Eu não sabia nada disto- é o que dá gostar de uma banda igualmente viciada em concertos).
Eis que a nossa heroína faz os seus cálculos, uns telefonemas, escreve uns emails e voilá. Quinta feira, Rute Gonçalves sai de Toulouse às 16h, atravessa a Espanha nessa madrugada, chega a Coimbra às 8h do dia seguinte para seguir para Viana do Castelo, com partida para Espanha às 20h (!) Confuso?! Tentem falar 3 línguas num só dia e aí perceberão o que é “confuso” Houve alturas que quase deixei ‘escorregar’ um “Danke shön” tal era o tumulto idiomático no interior do meu cérebro.
E para provar que eu não sou a única pessoa insana nesta história, revelo que quem nos levou a Santiago de Compostela (segundo o João
“apenas 50 km de distância de Viana" – right...) foi o pai do Jamie que ao mencionar “Olha pai, os Placebo vão tocar a Santiago de Compostela, queres ir?” obteve a seguinte resposta “ok!” E lá foi o trio maravilha e pai castiço, num carro cujo motor fazia mais barulho que um concerto de Manwar.
E toda esta insanidade vale mesma a pena?
Meus amigos, vale sempre a pena quando a alma não é pequena e a carteira é grande. Quando somos pobres é uma chatice, temos de ir nos transportes mais rascos, aturar bêbados desde a fronteira de Espanha com França até Portugal, andar com toneladas de peso às costas, fazendo tempo para o próximo transporte e passando muita fominha (comida de comboio argh!) Ah, mas concertos acreditados valem sempre a pena, especialmente depois do desaire fotográfico de Paredes de Coura.
O concerto de Placebo em Toulouse foi um espectáculo multimédia deslumbrante (luz perfeita) – totalmente diferente do que vimos em Portugal e oh meus amigos “Bionic” e Peeping Tom” no alinhamento. Em termos de empatia com o público nada bate os portugueses. Os toulousianos, guicham e berram desalmadamente - infelizmente tenho a prova pois gravei o concerto e volta e meia ouvem-se guinchos estridentes de rapariguinhas com as hormonas ao rubro. Para quem fala fluentemente francês Brian Molko (onde estava o gajo quando eu queria fazer-me compreender em francês?!) falou pouquíssimo em relação aos nossos concertos, mas o Stefan – esse movia o corpinho magricela de maneira libidinosa. Já em Espanha o concerto foi curto, despido de artifícios multimedia com, seguranças bêbados (com o patrocínio da Super Bock, não admira...) que não sabiam responder onde era a zona de imprensa do festival.
Em França, a minha crónica falta de direcção fez das suas e não fazem ideia das vezes que me perdi e optei pelo caminho mais longo (e tinha mapa!). Tomei o mais tortuoso e longo caminho para o Zénith (um género de pavilhão multiusos) debaixo de chuva e muitos
“Excusez moi, est-ce que peut me dire le chemin pour le Zénith, à pied?” depois. As portas só abriam às 18h, estava tudo fechado num raio de 1km do Zénith e ninguém sabia do paradeiro da minha press connection, por isso tive de me fazer à vida e desenrascar-me (em francês! Argh). Os seguranças nunca sabem nada e como eram as únicas pessoas presentes às 19h tive de ‘abrir’ caminho por eles. Depois de recolher o meu bilhete e credencial na bilheteira e após responder a um questionário inquisidor cujas perguntas incluíam: “Como conseguiste a acreditação” “Qual EMI?” “Qual Virginie?” , Que revista portuguesa?”, Tens identificação?” Que idade tens?”, “Gostas de Placebo?” HELLO?!?!!?!?!? Se eu soubesse dizer em francês : “Vai plantar coquinhos e desampara-me a loja”, era isso que dizia. Humft.
Frases mais utilizadas em França
« Bonjour! Est-ce que tu sais oú est Av, R., Bl. X ? »
« Tu sais le prochain chemin pour le Zenith ? »
« Vous parlez anglais/portugais ? »
« Je suis portugaise »
Frases mais ouvidas em França
«Non.»
Non, je ne parle pas anglais
Non, je ne sais pas
Non, tu ne peux faire une communication avec monnaie
Desculpem lá, será assim tão estapafúrdio querer um telefone público que aceite moedas e não um caríssimo cartão telefónico ou Visa? Porque raio ninguém sabe como fazer uma chamada a pagar pelo destinatário e não vem mencionado o código em NENHUMA cabine ou lista telefónica. E, porque demorei tanto tempo a descortinar que “monnaie” quer dizer “moedas” e não os franceses a tentarem dizer “money” em inglês?!?

Nem tudo foi espinhoso, Toulouse é uma cidade simpática, arquitectonicamente bonita com um custo de vida acessível e boa comida – baguetes fresquinhas foi a minha ‘papinha’ durante a estadia num dos melhores e mais baratos sítios onde eu alguma vez fiquei - Jolimont Résidence, onde curiosamente aconteceu o único episódio....er...surreal.

Chegada do concerto, quase à meia noite, entro na residência direita ao telefone na vã tentativa de conseguir fazer uma chamada. Passa por mim um rapaz que especado à minha frente, balbucia qual quer coisa que o meu olhar perplexo denunciou o “Hein?” por mim. Quando percebeu que eu era portuguesa, indagou “Guapa” e na minha exausta cabecinha as palavras que ele me havia dito uniram-se completando a seguinte frase:
“Te dit sincèrement que tu très beaux… "
Epá, por mim tudo bem, mas continuei apreensiva à espera que depois disso saísse qualquer coisa weirdo estilo, “queres ensaboar-me o pénis enquanto eu canto o hino nacional”. Mas, à falta do aspecto “weirdo” eu respondi “Merci” (sem sorrir, porque já se sabe o que o meu sorriso reserva...). O rapazinho, que até era jeitoso, continuou o seu caminho repetindo
“C’est vrai!...C’est vrai...” e desta vez o meu “Merci” veio atrelado a um sorriso discreto que o satisfez, despedindo-se com um
“Je vais dormir.”
É assim que as bebedeiras se curam...
So long, farewell, auf wierdesen, good bye
Lah Lah Lah