Já é de manhã quando chegamos a CHICAGO para (mais uma) mudança de autocarro e tomar o pequeno almoço. Pareço zombie em filme de terror série B. Está um frio que vai para além do meu conceito consciente de frio. A cidade está coberta de neve e não é coincidência chamarem a Chicago “the windy city”.
Já a caminho de Wisconsin, aproveito o trajecto letárgico do autocarro devido ao trânsito para conversar com o Jason e conhecer os novos companheiros de autocarro. As minhas preces foram ouvidas, as Manas bêbadas que nem cachos haviam ficado em Chicago. AMÉN!
À nossa frente: “The Pillow girl”, uma loura simpática que viaja sempre com uma almofada (esperta!) e um rapaz de poucas falas. Ao nosso lado, um dude de Seattle e uma loirinha estilo Barbie universitária, a caminho de Minneapolis para visitar “high school boyfriend”.
Discute-se o empate Bush /Gore. Jason é o único a pensar que George W Bush será um bom presidente e todos nós achamos que Gore é o genuíno vencedor. O rapaz de Seattle está , claramente, a ‘bater couro’ à Barbie Universitária. Disserta sobre o sua participação numa boys band, o seu divorcio aos 19 anos(?!) e a sua vida de aventura e crime.
Fala-se de quem mais sofre numa relação: homens ou mulheres. The Pillow Girl conta o caso do marido da irmã, que estava grávida, e teve o desplante de dormir com uma gaja no dia do parto da mulher. Jason, desabafa que as mulheres têm uma maneira “cruel” de “emotionally cripple a guy”. Testemunhando o “bater couro” do dude de Seattle, ficamos com a sensação que a bola está no nosso lado e, segundo o Jason, “that guy is full of shit and she’s buying it”. Impossível ‘cair’ em tamanha flagrante baboseira, é a minha opinião.
Estou farta de restaurantes de Fast Food! Deito hambúrgueres de filete de peixe, chocolates e bolachas ‘pelos olhos’. A troca de palavras nestes restaurantes é sempre a mesma:
“I would like a fish stick hamburguer” – peço
“With fries?” inquire o empregado/a
“No.”
“Do you want sauce?”
“No.“
“Want a drink
“No!…Listen I know its ‘weird’ but I just want a fish burger, ok?!”
Dentro do autocarro começo a perceber as actividades ilícitas relacionadas com ‘erva’ que estão a ser desencadeadas numa operação deveras ‘BONDiana’ sob o nariz do motorista nazi. Jason pergunta se quero ler a revista “High Times”. Dou uma sonora gargalhada ao pensar que ele está a gozar com a minha cara mas, na realidade, existe MESMO uma revista que versa sobre marijuana e a “nobre” actividade de “getting high”... E ainda dizem que não há liberdade de imprensa nos EUA! Sonho com sanduíches estaladiças e queijo fatiado e não aquela bodega de queijo creme.
Playlist para roadtrip dentro de um autocarro da Greyhound (não é tão glamoroso quanto viajar num thunderbird pela route 66, mas é a versão económica. Mas inclui mixtape cassete áudio para ouvir no voice recorder.
ESTOU FARTA DE ESTAR NESTE AUTOCARRO!!!!
Já esgotei todas as cassetes de Jewel e Soul Asylum e estou aborrecida de morte
Na nossa 4ª ou 5ª paragem (o cansaço mental impede-me de saber com precisão) consigo telefonar à Jen e combinar onde nos encontrarmos. (ufa!) Quando entramos em St Paul, o entusiasmo sobe sobre o meu cansado espírito ao pensar que dentro de horas estarei a assistir a Soul Asylum ao vivo e, muito possivelmente, conhecê-los pessoalmente.
Acho estranho ler numa tabuleta que o rio que estávamos a atravessar se chama “Mississipi” (Então o rio Mississipi não é no sul?!!?) NOTA MENTAL: a extensão dos EUA é imensa e um rio pode muito bem atravessar uns quantos Estados.
A entrada em Minneapolis é triunfal, o sol brilha e a cidade é arquitectonicamente belíssima com imensos arranha céus, algo que nunca imaginei existir em Minneapolis. Os meus companheiros de viagem falam de um tal “Mall of America” (o maior dos EUA). Achamos estranho haver guindastes e construções por toda a cidade.
Entrámos na gare rodoviária, vejo a Jen, reconheço o Tim da janela do autocarro. Começo a pensar como raio hei de cumprimentar este pessoal?! “Olá” e “Adeus” nos Estados Unidos são uma tortura porque eles não aderem ao ‘formato’ beijo na cara e um aperto de mão parece-me sempre demasiado formal e parvo. Tinha brincando com o Tim ao dizer, por email, “NO KISS FOR YOU!”
As casas de banho das rodoviárias são a minha salle de bain privada. Nestas alturas, contrária à opinião do meu médico, acho bastante saudável não suar. Também com o frio que está, essa seria uma hipótese remota...mas, 32h dentro de autocarro são 32h.
Seguimos para o restaurante Old Chicago onde me esperavam os membros do Clube dos Soul Asylum. O Phil parece-me mais forte do que o imaginava e a Jen é uma querida e o Tim é um porreiro. Todos haviam lido o meu post e sabiam que estaria “dead tired”. Acharam-me “hyperactive” (bruxo, com 7 anos de espera para ver Soul Asylum acumulados)
Comi a mais deliciosa lasanha vegetariana que me fez esquecer toda a comida “lixo” dos malditos restaurantes à beira de auto estrada. O Todd não apareceu com os bootlegs de Soul Asylum que tinha pedido.
Fomos para a fila do Fineline. Estava frio que se tolerava. Vê-se neve acumulada na beira da estrada e acho piada ver a neve toda negra. Segundo a Jen, “Snow isn’t that nice this time of year.” O tempo de espera é preenchido com conversas sobre filmes e concertos. Temo não conseguir entrar com a minha máquina fotográfica, não goste do concerto, entre em coma estático ao vislumbrar a banda no backstage.(MEDO! MEDO!)
Entro sem problemas, o segurança acha estranho ver um passaporte de alguém que mora tão longe (..."from Spain..", deve ter pensado). Havia duas bandas suporte. Já não tenho pachorra para bandas suporte, especialmente naquela altura. Ainda me aguentei na primeira banda, mas na segunda já estava com a cabeça deitada no amplificador.
“OH NO!!! She’s going down!” brincou o Tim ao meu lado. Eu sorri, garantindo que quando chegassem os Soul Asylum estaria “wide awake!” E como! O Fineline era um recinto estilo Paradise Garage, o palco não tinha mais de um metro de altura e estávamos mesmo em frente. Estávamos tão perto que, se não tivesse cuidado seria pisada pelo Karl Muller e levava com o suor do Dave Pirner na cara!
A realidade provou ser bem próxima dessa previsão.
Assim que a segunda banda desapareceu do palco eu acordei estilo mola de “cracker jack” e não parei até a banda sair do palco. Depois do concerto, fomos para o backstage, cortesia da Jen e, confesso, ser recebida à porta pelo Dave foi uma experiência totalmente surrealista. Lembro-me estar fixada nos seus belíssimos olhos azuis e reagir como uma velhinha que agradece o jovem escuteiro que abre caminho para ela. Estranhamente não entrei em coma logo ali.
Passeámos pelo backstage que estava à pinha, falei com o Ian (novo baterista) sobre a Escócia (ele é britânico). Vi o Dan no sofá com uma rapariga e pensei ir até lá dizer um “Hello” mas fiquei pelo pensamento. Não sei bem como, mas tive o Karl à minha frente, intrigado com o que alguém lhe havia dito sobre mim.
“You came from Portugal?!”
“Travelled 32h on a bus to see you guys?”
“Why?!”
“To see you! I’ve waited 7 years to see you!”
"Why"
“Cause you rock!”
Fomos interrompidos. Voltei ao Ian que estendeu o convite para o segundo concerto deles. Disse que ia tentar pois tinha viagem marcada para Los Angeles. “We’d love if you could come!” disse A minha consciência convencia o meu cérebro a (nem sequer!) pensar na insanidade de regressar a Minneapolis para um segundo concerto, por mais incrível e excitante que fosse.
Durante uma meia hora, fiquei no sofá a beber refrigerantes. Infelizmente os bufets dos Soul Asylum não incluem fruta como os dos Silence 4. Chegou a hora de nos irmos embora. A Jen quis despedir-se do Dave que gozou com ela por esta confessar viver em Coon Rapids: “Hey, that’s not Minneapolis!!
Finalmente, consegui ter 2 minutos de conversa com ele ao sermos apresentados convenientemente. Alguém lhe disse que era portuguesa e tinha vindo de propósito para o concerto (acho que foi o Tim).
“Wow, really?!” perguntou
“Yes, travelled 32h on a bus to be here”
“You went all the way from Portugal on a bus?!?” gracejou
“No! from NYC”
“Why didn’t you take the train?!”
“Cause its more expensive…” (DUH)
Aproveitei para mencionar que tive pena por não ouvi-los tocar “Chains” a minha favorita. Ele disse que já não tocavam isso desde...
…
“1994, in Barcelona, Spain” completei. “Unfortunately I missed the opportunity to see you there...”
Fomos interrompidos, de novo. Tinha ali o gajo a jeito, pronto para termos uma conversa interessante e o estúpido do baixista da banda suporte rouba o meu spotlight sem dó nem piedade.
Tínhamos de ir, apenas atirei um “Bye, great show. Nice to meet you” estilo ‘palavras ao vento’ com plena consciência que ele não ouviria mas, ao voltar costas para ir embora, aconteceu algo que só pode ser devidamente percepcionado, imaginando a cena em câmara lenta, como nos filmes.
Ele puxa-me o braço suavemente, olha directamente nos meus olhos, abre um enorme sorriso e diz : “Thanks for coming to the show. I hope to see you next time…”
E foi assim que mandei a consciência para as urtigas e obriguei o cérebro a assimilar as palavras: “I’m going to the second show!” (Nunca subestimar o poder de uns enebriantes olhos azuis...)







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