24 Julho a 11 Agosto
Tinha 20 anos e estava no 2º ano da universidade quando li o cartaz sobre o St Andrews College Summer Course na Universidade vizinha, a ESE de Lisboa. "Venha viver o sonho e aprender inglês", anunciava o cartaz e tinha razão...
ARRIVAL
Éramos cerca de 62 portugueses de norte a sul do país (incluindo ilhas) com idades compreendidas entre os 12 aos 40. Ocupávamos dois autocarros e rumamos a Bearden -um subúrbio de Glasgow onde estava situada a Universidade. Chegamos ao fim do dia e apenas houve tempo para um late supper no refeitório. Fomos recebidos por John Corcoran, o director das quatro Residências, baptizadas com o nome de quatro freiras. O campus da Universidade havia sido um convento e esse facto revelar- se ia deveras propício para as famosas ghost stories contadas pelo John McMannus. O grupo português estava concentrado no Julie B. Hall. Eu fiquei no 3ºandar, no quarto #67 com uma vista fabulosa para Bearsden. O meu quarto estava paredes meias com duas raparigas: a Joana e a Vera. Passados 3 dias éramos as melhores amigas.
THE STAFF
A equipa do Summer Course dividia-se em professores e os monitores responsáveis pelas actividades desportivas, culturais e ainda os responsáveis pelas viagens de grande distância. Noel e Ruth eram ingleses, Kieran e Dara, irlandeses, John McMannus (Big John), John Angus (Little John), Simon, Malcom, James, Lynn e Thierry, escoceses. A empatia com o grupo português foi imediata.
FIRST DAYS
O primeiro dia foi marcado pelo teste diagnóstico para avaliar o nosso nível de Inglês e dividir as turmas consoante o resultado. Foi feita uma visita guiada ao campus, o Dean - um rapaz de 15 anos bastante bem humorado, foi o nosso guia. Para além das salas de aula, refeitório e residências, o St Andrews tinha igualmente um complexo desportivo que incluía, piscina, campos de ténis e ginásio.
No segundo dia foi planeado um “pequeno” passeio por Bearsden. O Kieran liderou a 2ª caminhada - mais 5 quilómetros extra! Na sua diligente iniciativa, incentivava: Come on, is just a small walk stop wining! Foi a mais longa caminhada que alguma vez percorri. Visitamos os vestígios romanos, a chamada “Roman Bath House” e o “Roman Hall” no cemitério de Milgavie. Nunca tinha visto um cemitério assim. Centenas de metros de túmulos (a maioria com séculos de idade) cruzes de pedra em motivo celta e anjos esculpidos com vista para Bearsden.
A nossa estadia no Summer Course foi muito bem coberta pelos "media"
THE CLASSES
As aulas de Inglês ocupavam a manhã das 9h às 12.30h. A maior parte dos alunos detestava levantar-se cedo (afinal de contas, férias não incluem atitudes madrugadoras...), mas eu adorava as aulas. A meio da manhã, o Dean (por vezes o Kieran) aparecia na sala de aulas para comunicar o plano de actividades para esse dia. No início foi difícil encontrar a sala de aula, dado o caminho labiríntico por entre os corredores. Estava inserida na turma de “Advance English”, tinha o Noel e a Ruth como professores. As turmas eram multi nacionais para evitar que falássemos uns com os outros na língua materna. ENGLISH, please! era o constante apelo da professora Ruth. Eu e o Leonardo éramos os mais participativos, ambos fluentes em inglês, curiosamente, ambos fãs de cinema – daí o sotaque americano. Durante toda a minha estadia eu assinei o meu nome como “Ruth”.
Why? inquiria o Noel
I prefer Ruth so people don’t call me Ruta, since foreigners can’t pronounce my name.
Escusado será dizer que, volta e meia, chamava-me “Ruta” à rebelia. O Noel é talvez o inglês mais divertido e um dos melhores professores que tive. Estava sempre sério mas tinha um humor negro nota 20.
CULTURAL GAP
O 'campus' do St Andrew's servia igualmente a comunidade. As residências funcionavam como pousadas durante o Verão. Muitos jogadores descobertos por "olheiros" faziam as provas ou estágios nos campos de futebol da universidade. A piscina e instalações desportivas que incluíam, o ginásio, campos de ténis e futebol. Este último, palco de grande desgarradas futebolísticas entre os professores e os alunos, estavam abertos ao público em geral. Dois brasileiros apareceram no campus para fazer provas de selecção para uma equipa de futebol de Glasgow.
O Kieran estava em pulgas para saber para que equipa estavam a fazer provas. Destacou-nos para investigar, uma vez que partilhávamos a mesma língua. Sort of...
Brazucas: Ué, vocês são de Portugáu? Lá tambêm há marr?
Portugas:Er...Sim, metade do país é costa...
Brazucas:E vocéis lá tambêm falam portuguéis?
Portugas:Er...sim, nós inventamos o português...(duh)
O St. Andrews nesse ano, acolheu a NYOS (National Youth Orchestra of Scotland), dezenas de jovens reuniam-se no salão para ensaiar. Eu costumava assistir aos ensaios e foi assim que conheci o Peter, um americano do Oklahoma. Dias depois de o conhecer, vi-o no salão e cumprimentei-o achando estranho ele retrair-se cada vez que avançava para o beijar na cara.
Duas hipóteses para este cenário
a)Tinha mau hálito
b)Era repugnante
A explicação surgiu no dia seguinte pela voz do Peter.
“I’m really sorry about the other day but in America we say hello shaking hands.”
NO KISS FOR USA! humft
PORTUGUESE DO IT BETTER!
Havia um placard para cada nacionalidade presente no St. Andrew's, o nosso era predominante, mérito da Isaura. Nós absorvemos, participamos, aderimos, concorremos a tudo: jantares tipicamente portugueses - o belo do bacalhau à Brás (eu e a Joana ficamos encarregues de desencantar o azeite - tarefa não tão fácil como aparenta), jogos, actividades desportivas, karaokes, discos, festivais, festas privadas nos quartos (umas mais privadas que outras...). A própria commom room tinha o espaço “Chá e Café”. Diziam os entendidos: “o café do St. Andrew’s é água de lavar pratos”).
THE FUN CONTINUES...
CEIDTH
Lê-se "kaylee", é tão complexo quanto dança sincronizada debaixo de água e é dez vezes mais perigoso (especialmente se o Sandy e o Malcom estiverem por perto). Não me refiro a nenhuma árdua prova escocesa mas sim a encantadora dança escocesa. Com par ou em grupo, com conhecimento ou sem ele, as aulas de ceidth deixavam sempre marcas (por vezes torcicolos e ruptura de ligamentos)
O diácono Leonardo lol tinha uma palavra a dizer...(ou mais!)
SPORTING ACTIVITIES
(a pirraça entre o Kieran e a equipa dos estudantes era histórica)
”CADETE PUTS THE BALL IN THE NETY”
Sempre que mencionávamos a nacionalidade portuguesa, os escoceses mostravam um thumbs up acrescentado com um sorriso de orelha a orelha: “Cadete!”. O ex-jogador do Sporting – apelidado de “juba de leão” no Secundário (o Figo era o “caniche” – todas as estrelas do futebol têm um tenebroso passado capilar...) - foi elevado a santo por golos em nome do Celtic. Este era o clube de eleição do nosso querido Kieran e, por afinidade, também o nosso. Isto queria dizer que juraríamos desprezo à equipa rival – os Rangers, igualmente de Glasgow
A Joana assistiu a um jogo e presenciou in loco a “febre Cadete”. Infelizmente o Cadete estava de férias no belo Portugal mas, o Kieran prontificou-se a reproduzir os cânticos dedicados ao jogador favorito dos glaswegians.
SCOTTISH WEATHER
Foi-nos dito que a Escócia era o país das quatro estações no mesmo dia. Preparei a minha bagagem de acordo com essa ideia: corta vento com capuz, casacos quentes, blusas de manga comprida, botas de inverno, porém, a Escócia acolheu-nos com um sol quente e radiante que os escoceses não estavam habituados. A denominada heat wave proporcionou inúmeras idas à piscina com direito a sessão de bronze, telefonemas para casa pedindo roupas leves. Quando recebemos os pacotes postais com roupa leve...começou a chover.
That’s Scotland for you!
BOO!
O John Angus,e xímio contador de histórias, com aquela voz grave estilo Christopher Lee revelou-se o orador perfeito. O John tinha espalhado o terror por entre os halls da residência com as histórias das freiras que tinham sido assassinadas em África e os pingos de sangue e passos que ecoavam pelos halls durante a noite. “I swear to you, I’ve seen one of them right here where I’m standing...”. A Joana acordou uma noite em pânico ao jurar ouvir pingos da janela do quarto, os mais novos recusavam-se dormir sozinhos em certos quartos e a descoberta do levantamento do cemitério onde foi construído o colégio não sossegava as mentes dos mais novos.
Na Ghost Night, e enquanto o John narrava as suas histórias, pingas de sangue escorreram pelas janelas da commom room, ouviram-se uivos de dor e sons de correntes. O John e o Sandy ficaram perplexos e, desta vez, a vingança era nossa MUAHHHHHHHHHHHHHHHHAHAHAHAHAHAHH
CROSS COUNTRY
Eu apenas levei 3 rolos fotográficos com a plena convicção que seria suficiente. BIG MISTAKE! Tive de pedir um rolo emprestado e passei largos meses a tentar recolher cópias dos outros para preencher o meu álbum. O impacto dos filmes: “Braveheart” de Mel Gibson e “Rob Roy” de Michael Caton-Jones no turismo escocês foi gigantesco. Por todo o lado surgiam menções aos filmes para dar a conhecer os heróis nacionais.
Visitamos os mais belos lugares da Bonnie Scotland. Da janela do nosso autocarro avistámos extensas planícies verdes com as highland coos (vacas de longo pêlo ruivo), resmas de carneiros e ovelhas, cemitérios, belíssimos lochs e montanhas.
O itinerário incluiu:
Glasgow a maior cidade do país. Visitamos o Museu do Transporte e Kelvingrove. O James levou-nos ao Jardim Botânico na nossa primeira viagem de autocarro. O 118 é o nosso amigo...
Bearsden tinha igualmente os seus cantinhos maravilhosos, um lago com patinhos e cisnes que ficaram obesos com a quantidade de pão que lhes oferecíamos. Não muito longe do St Andrew’s uma colina com vista para o Loch Lomond e Trossards era protagonista das Queen View Walks. Só os valentes e mais agasalhados conseguem chegar ao topo sem choramingar!
Edinburgh A capital do país que fervilhava com a presença de turistas, muitos italianos e resmas de japoneses (a julgar pelas máquinas fotográficas/câmaras em riste). Ao longo da Broad Street dezenas de lojas de souveniers com funcionários vestidos a rigor com o kilt. Um deleite visual tendo em conta que os altos e torneados jovens substituíam a visão dos velhotes flácidos de cabelo branco com a gaita de foles que surgiam em cada esquina, loch, vila escocesa. O castelo, construído em cima de um vulcão extinto é, talvez, o maior do país e 3 horas não foram suficientes para ver todos os recantos. Às 13 da tarde soam os canhões que entoavam pela cidade prestes a receber o conhecido festival de Edinburgh.
Loch Lomond Viajámos de barco para uma pequena ilha com um pontão divinal e uma caverna que foi esconderijo do Rob Roy.
Stirling Uma pequena cidade histórica com o seu castelo altaneiro, conhecida pela batalha que William Wallace travou contra os ingleses. No filme, a batalha é travada em campo aberto, mas na realidade tudo aconteceu numa ponte de pedra que avistámos ao longe. Todas as cidades têm cemitérios lindíssimos.
Crieff - Perhshire A Distilaria de whisky, poiso do gato Tawser, detentor do Guiness Book por longevidade e maior número de ratos caçados. Esta é a terra natal do Ewan McGregor mas, muito infelizmente, o gajo estava em Londres.
Com os portugas em solo britânico, a expressão “Pontualidade Britânica” foi substituída pela “Pontualidade Portuguesa”, ou seja, todos chegavam atrasados provocando dores de cabeça aos monitores.
St. Andrews Terra do golf, com dezenas de campos espalhados pela cidade, mesmo em frente à praia. As gaivotas escocesas são mais ousadas, roubado toda a comida que estiver à vista -mesmo que esteja na nossa mão a caminho da boca. A caminho de St Andrews visitamos o Falkland Palace, o meu palácio favorito com jardins lindíssimos e recantos curiosos, cenário para românticas histórias de fantasmas.
Oban Ficámos pouco tempo na vila piscatória que me relembrou Portugal devido ao cheiro a mar. Dei um passeio pelas ruas e fiz as compritas da praxe uma vez que aquele era o último fim de semana na Escócia. Foi um milagre esticar as 30 + 20 libras durante as três semanas. Muita dieta de compras... Ainda consegui levar para casa; uma t-shirt, uma cruz celta, uma highland coo (em peluche, claro está) , três brochuras, uma boina, a Nessie (o mostro do lago tamanho clip on), Butterscot cookies (hummmmmm), brincos de prata (presente do Leonardo) e resmas de postais. Pedrinhas dos lochs, thistles, panfletos, boas memórias e recordações foram free of charge.
Glen Coe A viagem foi interminável mas aquele recanto das montanhas valeu cada quilómetro de viagem. Ali, na entrada das Highlands respirava-se ar puro e a história dos clãs da Escócia. O Big John contou-nos a lenda do massacre dos MacDonalds e levou-vos a um pub muito simpático escondido entre um caminho esconso do bosque.
GRADUATION
Chegou o último dia do Summer course. Preparamos uma mega festa de despedida que exigiu o esforço, imaginação e criatividade de todos. Depois da cerimónia de graduação onde recebemos os nossos diplomas, convidámos os professores e monitores a assistir à nossa cerimónia. Alunos caricaturaram professores (escolhi o Kieran com a famosa frase: “Today we’re gonna watch our beloved Celtic!”- sotaque e cachecol incluídos). Fiquei encarregue de criar a brochura: “HOW TO DANCE without Brusing or killing your partner”, oferta para o Malcom. A Sandra fez um lindo discurso, montamos um buffet, oferecemos lembranças. Correram muitas lágrimas, trocaram-se emails e moradas e as despedidas foram difíceis. Especialmente para o jovem parzinho Dean e Vera, separados no aeroporto pela distância e a nacionalidade. Assim é o summer love.
A minha paixão de Verão foi a Escócia que ficou para sempre no meu coração. Pela fascinante História e beleza do país, pela simpatia dos escoceses, pela união e camaradagem do grupo português com os monitores e professores, pela experiência única de viajar sozinha pela primeira vez A viagem que tornaria possível todas as viagens que a procederam, o ponto de partida para o TRIPSPOTTING...

















